Quem é a mulher mais jovem do setor supermercadista baiano que deve fechar o ano faturando R$ 350 milhões? CEO da rede feirense Corujão 24h, Daniela Lacerda conta nesta entrevista como conseguiu expandir o negócio sem tradição nem herança Priscila Natividadepriscila.oliveira@redebahia.com.br

Quem é a mulher mais jovem do setor supermercadista baiano que deve fechar o ano faturando R$ 350 milhões? CEO da rede feirense Corujão 24h, Daniela Lacerda conta nesta entrevista como conseguiu expandir o negócio sem tradição nem herança Priscila Natividadepriscila.oliveira@redebahia.com.br

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Quando criança, ela já trocava presente de Natal por cartela de adesivos e brinquedos para vender aos amigos. Foi sacoleira na faculdade. Abriu uma loja de produtos importados também. Hoje, Daniela Lacerda é ceo de uma das redes supermercadistas de Feira de Santana que mais crescem. “Enfrentei muitas reuniões onde muitos fornecedores esperavam ‘o esposo’, como se a minha imagem foi algo irrelevante. Sobre os homens do setor varejista, muitos continuam engessados nas mesmas perspectivas”, diz a feirense de nascença com a convicção de quem, aos 30 anos (recém completados), ganhou destaque por ser reconhecida como a mulher empreendedora mais jovem do setor supermercadista do estado.

Apesar do seu pai ser comerciante, o segmento de supermercados não é herança, nem tradição de família. Tudo começou em 2014, com o depósito de bebidas que abriu com o, na época namorado e hoje esposo, Victor Silva. Cerveja aqui, refrigerante ali, os clientes começaram a pedir hortifruti, perguntar se vendia pão. E carne de churrasco? Aí, ela não pensou duas vezes em expandir e transformar o negócio em algo maior.

“Só no primeiro ano da minha loja de roupas femininas e artigos importados, eu tive um lucro de R$ 100 mil. Junto com meu esposo, abrimos nossa distribuidora de bebidas. De cara, criamos uma nova identidade para a região, já que era a primeira da cidade a funcionar 24 horas. Os clientes começaram a buscar outros itens também. Daí aumentamos o mix de produtos e assim nasceu nosso primeiro supermercado”, conta.

Deu tão certo que, no último ano, em plena pandemia, o Corujão faturou R$ 285 milhões. Até o final de 2021, esse montante deve chegar a R$ 350 milhões. Com a expansão da franquia da rede em 2022, a meta é alcançar R$ 500 milhões, como adianta Daniela. Com sete unidades instaladas, no início do ano que vem, o Corujão sai de Feira de Santana para inaugurar a sua primeira loja franqueada em Salvador e conquistar a capital. Como ela conseguiu? Boa pergunta.

Veja na entrevista…

O que te levou a se tornar empreendedora e como começou?

Acredito que um dos principais motivos que me levaram a empreender foi a dinâmica de oportunidade de quem tem coragem. E eu sempre fui muito corajosa, não sou do tipo que me preocupo com as críticas, com os desafios. Sempre tive um único alvo: sucesso.

Comecei ainda muito cedo. Lembro dos meus primeiros R$ 100. Tinha 7 anos, meu pai levou a gente na ‘Feiraguay’ para escolhermos o presente de Natal. Eu comecei a pegar miudezas entre cartelas de adesivos e brinquedos mais baratos e disse que iria ‘brincar de vender’. Na primeira oportunidade, peguei uma mesinha, coloquei na porta de casa e pronto: nasceu a Daniela Lacerda que amou a vida dos negócios.

Qual o caminho até aqui e por que apostar no setor de supermercados?

Apesar de saber do meu dom e desejo por empreender, meu pai quis que eu fosse para faculdade. Como comerciante e encontrando dificuldades ao longo da sua vida profissional, ele acreditava que os estudos e um concurso público me proporcionariam uma vida mais ‘segura’. Mas foi lá mesmo, na faculdade, que eu comecei a fazer dinheiro, quando operei informalmente como sacoleira vendendo roupas e acessórios.

‘Sobre os homens do setor varejista, muitos continuam engessados nas mesmas perspectivas’, opina Daniela Lacerda (Foto: Taila Silva/ Divulgação)

Com isso, consegui uma renda que me deu recursos para alugar um ponto comercial e abrir a minha primeira loja de roupas femininas. Sempre fui muito curiosa e já de cara decidi trabalhar com diferencial competitivo. Na época, o Aliexpress foi meu gatilho para importar peças de roupas onde a minha margem de lucro era bastante positiva.

Então, surgiu uma nova oportunidade de negócio com o meu esposo com o depósito de bebidas. Ele operava no atacado, mas queria algo voltado mais para o varejo. Assim nasceu a nossa distribuidora de bebidas. Misturamos entretenimento e mídia social.

Logo, isso alavancou a repercussão local, que começou a buscar além da bebida, outros itens. Enxerguei a necessidade e comecei a observar que quanto mais itens tínhamos, mais crescia o ticket médio do cliente (consumo) e, consequentemente, a nossa margem. Então, o Corujão virou supermercado.

E na hora de pensar esse negócio, como inovar diante de um mercado como o supermercadista?

O primeiro passo foi utilizar os canais digitais como gatilho de oportunidade e desejo do cliente. Há sete anos, o Instagram não era uma ferramenta comercial como hoje, mas já era a segunda mídia mais utilizada pelos brasileiros. Foi assim que conseguimos transformar a identidade da marca em desejo. Os clientes é que faziam a publicidade orgânica, além de sempre vincular a minha imagem, que é extrovertida e comunicativa para tratar com mais proximidade através de stories.

Hoje, você é a mulher mais jovem do setor supermercadista, com 30 anos. Como chegar a esse posto e qual o significado disso para você, sobretudo em um setor que é dominado por homens e redes varejistas tradicionais?

Não existe uma regra para o sucesso e sim dedicação. Isso é uma das coisas que mais me orgulho. Aquela história que a gente ouve e vem passando de geração em geração se desconstrói com trabalho e coragem. Mulher ou homem, nascemos com duas oportunidades: continuar ou desistir.

E com certeza o motivo de toda essa minha repercussão não tem receita perfeita, mas muita dedicação ao que escolhi fazer. Mas esse desafio aumentava a dedicação à minha operação, superando – acima de tudo – minhas próprias expectativas. A faculdade não era uma escolha minha, mas era um sonho de meu pai e eu preferi viver os meus próprios sonhos.

Como enxerga a vocação da mulher baiana em empreender? Como a liderança feminina é capaz de transformar os negócios, sobretudo, em um cenário pandêmico?

A baiana por si já tem o dom de ser ‘arretada’. E eu sou uma baiana nata. Audácia e alegria diante das dificuldades são os principais atributos que direciono nas minhas atividades diárias. E claro, no cenário que enfrentamos nos últimos dois anos, sem a criatividade feminina e sensibilidade não conseguiríamos manter nossa crescente de mercado. Hoje, o que mais cuido na empresa, através dos meus projetos de gente e gestão, é o capital humano, nossos colaboradores, que hoje contabilizam mais de 500 profissionais.

O que ainda é desafio para a mulher empreendedora?

Nós, mulheres, enfrentamos questionamentos diariamente: ‘como ela conseguiu?’, ‘herdou de alguém?’. Falta o apoio moral a uma amiga que está começando a loja virtual, mas que você prefere comprar no site famoso. São vários paradigmas, desde os menores até os grandes, porém, com o mesmo sentido: o de achar que não nascemos para isso.

O setor de supermercados foi um dos poucos que não sentiram a crise provocada pelo coronavírus, já que alimentos são itens de primeira necessidade. Como vê esse cenário e como a pandemia transformou o segmento?

Mesmo a alimentação sendo um produto de primeira necessidade do consumidor, ele também busca além de preço, novas experiências: seja com um mix de itens diferentes, a excelência do bom atendimento, a integração de mídia social, tudo isso gera um novo potencial de mercado.

A pandemia nos levou a uma nova perspectiva de consumo. As idas ao ambiente de supermercado eram comuns, então, começamos a observar que ele também necessitava de entretenimento. Investimos em melhores padarias, sushi bar e novas modalidades que não eram comuns ao setor.

Por que Feira de Santana? Qual o potencial da região, o perfil de consumo do cliente do Corujão e o ticket médio também?

Feira de Santana, apesar de ser interior, gira no maior entroncamento do estado, recebendo gente de todo o país. Como filhos da cidade, observamos a carência local em entretenimento e qualidade no setor supermercadista, transformando o nosso negócio em um novo ideal para concorrentes. O perfil do consumidor do Corujão é o cliente que busca novidades e experiência de compra. O ticket de consumo durante o ano foi de, em média, R$ 160 por cliente.

O setor de alimentos foi o que mais ganhou na pandemia. Qual a ação social que a empresa tem tocado um momento tão grave como o que estamos passando?

O compromisso de um empreendedor é, acima de qualquer coisa, olhar o outro com a dignidade de dizer ‘eu preciso dele para estar aqui’. Ninguém vai muito longe sozinho.

Há mais de cinco anos nossa empresa apadrinha cinco instituições locais mensalmente, além das ações que fizemos durante a pandemia como as campanhas Pegue seu alimento e Você precisa de pão. Deixávamos esses itens disponíveis para que os mais carentes tivessem acesso gratuito.

O Corujão já tem planos de expansão? Salvador está incluído, existe alguma previsão para abertura de novas lojas?

A abertura das nossas unidades em Salvador vem em formato de franquia, ou seja, de lojas de vizinhança. Não queremos competir, queremos agregar novas oportunidades de compra para os clientes da capital e do nosso estado. Em janeiro, iniciaremos a operação da nossa primeira franquia instalada na Paralela. No primeiro ano, devemos gerar 1 mil empregos diretos e 2 mil indiretos.

Fonte:www.correio24horas.com.br